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NOVO HUMANISMO (as razões do Naturismo)

O número anterior deste Boletim continha o artigo intitulado “60 cm2 (ou talvez menos) – O pudor ao centímetro e a mentira de uma exigência moral”, no qual se procurava demonstrar que a fobia, o medo aterrador de 60 cm2 do corpo que se deveria cobrir por pudor, latente na cultura dominante, “é uma consequência da falta de educação sexual daqueles que durante anos foram traumatizados por formas mórbidas de repressão.”

E terminava assim: “Essa educação deformada não se muda, porém, num dia. Há que lutar por uma construção sólida que a modifique. E isto porque os benefícios da prática do nu para a saúde física e, sobretudo, para a saúde mental dos que a vivem por inteiro, são indiscutíveis. Embora conhecidos, vamos lembrá-los em próxima conversa. Pode ser que aprendam alguma coisa, aqueles que medem a moral com fita métrica. Mas não é certo…”

Há que cumprir a promessa, útil talvez para aqueles que continuam a apresentar objecções ao naturismo mas certamente escusada para todos os que já não colocam questões de princípio ou de direito e vêem o naturismo como um facto social de enorme valor que conquistou direito de cidade.

Quando falamos de nu, entendemos o termo como a nudez integral (pois a nudez parcial há muito que já não está em causa), incluindo, naturalmente, os órgãos sexuais – ou seja, os tais 60 cm2 (ou talvez menos). É o estado de um corpo que não tem em cima de si qualquer tipo de vestuário: nua é a pessoa cujos órgãos sexuais não estão escondidos do olhar por um tecido ou outro objecto; vestida é aquela que esconde pelo menos uma parte do corpo. É esta a definição mais ou menos jurídica, a partir da qual foi possível a instauração de numerosos processos judiciais e o desenvolvimento de uma corrente jurisprudencial tradutora do que é estar nu ou estar vestido. Para as publicações do mercado, as reproduções fotográficas ou outras, o critério para estabelecer o que é nu integral é a reprodução dos pelos púbicos. É também o que significam as expressões populares correntes: nu como quando nasceu, nu como um verme, nu como Adão no Paraíso…

Não deve confundir-se o nu assim entendido com a noção vulgar de nudez ou de despido: esta não é a do nu originário, pois que se reporta sempre à anterior posição da existência de vestuário. Pode estar-se mais ou menos vestido e é esse o jogo da tentativa espontânea da sedução feminina, que parte precisamente deste “menos”, procurando fazer desejar e sugerir o que não é mostrado. O Striptease situa-se nesse meio-termo entre o nu e o despido, que vai procurando excitar através do tapar e destapar o que está escondido. Pelo contrário, o nu que não se esconde não é excitante, mas inteiramente são.

É por isso que os movimentos naturistas, no propósito de evitar a confusão que muitas vezes estabelecem aqueles que nunca frequentaram um espaço nudista, passaram a usar para o nu assim vivido o termo de “actividade gímnica”, trazida da expressão antigamente utilizada para referir os jogos em que os atletas combatiam nus.

Pode definir-se essa actividade como um estado positivo e natural de nu completo, integral, praticado em grupo e de preferência em plena Natureza, com a troca mútua da visão dos corpos, sem artifícios, reflectindo um estado interior de verdade, de franqueza e simplicidade. Estamos perante uma filosofia, a que foi dado o nome de gimnosofia e que permitiu a passagem da simples nudez ao nu, como prova de sabedoria que supera o comportamento social do pudor adquirido à força de proibições e traumas ancestrais, causadoras de muitos dos males hoje vividos.

Podemos sem erro considerar o nudismo social, isto é, a generalização do nu no meio em que vivemos (sem o enrolar com as mixórdias exploradoras, resultantes dos traumas avoengos), como uma das grandes criações deste fim de século.

Opõe-se-lhe, naturalmente, o burguês hipócrita, que confunde nu e sexo e para quem só pode estar-se nu para a prática de relações sexuais. O grande escândalo para ele é que o nu possa ser inocente, casto, sem artificio, pois é o erotismo e o sabor do pecado que o atraem, não aceitando a rajada de ar fresco que expulse as suas ideias para a alcafurra das desnecessidades comprovadamente perniciosas. É o pudor por ele defendido que atrai, afinal, a atenção para aquilo que diz pretender esconder, não podendo aceitar o que o naturismo lhe oferece para o corte radical desse círculo vicioso.

O naturismo começou por descobrir (com apoio de todas as conclusões da ciência, hoje indiscutíveis, sobre o valor da helioterapia) que o banho de sol integral, órgãos genitais incluídos, tem uma acção microbicida, cicatrizante, analgésica e estimulante. A acção directa do sol sobre as glândulas genitais é mais eficaz que através de um tecido, como ficou demonstrado desde os anos 30 por variados estudos e experimentações. Aliás, o uso de um calção húmido sobre o corpo é uma aberração grotesca, perigosa, causa de possíveis resfriamentos, que leva muitas vezes as mães cautelosas a mudar os fatos das crianças depois do banho de mar.

Mas não é o mais importante. Os valores da actividade gímnica são, sobretudo, de ordem psicológica. Contudo, é a experimentação da prática naturista, com uma inultrapassável sensação de prazer e de liberdade, que se apresenta como principal motivo para conquistar definitivamente todos aqueles que a ensaiaram: nadar nu nas águas do Oceano provoca uma intensa impressão de alegria e é uma surpresa para todos aqueles que só o haviam feito em fato de banho. É certo, é um valor de ordem hedonística – pelo que alguns naturistas afirmam que usar um trajo desses para se banhar é tão pouco inteligente e tão pouco prasuroso como visitar um museu de pintura ou escultura com óculos escuros ou ouvir um concerto de música clássica com algodão nos ouvidos.

Porém, o nudismo social é, sobretudo um gesto de confiança e manifestação de calma interior, a renúncia a todas as grilhetas físicas e “morais” segregadas pelas convenções. É uma libertação do tabu do nu, do universo mórbido da falta, da escravatura dos 60 cm2 que foi imposta por uma errada educação.

Mais: o naturismo é a simplicidade triunfante, oposta às tortuosas considerações da chamada civilização de hoje, que conduziu à destruição da natureza, à exploração desta e de muitos seres e à dificuldade de encontrar o prazer e o ócio no que é fácil e sem ostentação.

A actividade gímnica traduz-se ainda na reabilitação do corpo humano, durante séculos considerado como templo do pecado, cuja visão indispunha os obcecados e que conduziu à actual fixação na necessidade de vestuário. O naturismo tem valor terapêutico, na medida em que conduziu a aceitar a vista do próprio corpo e a dos outros, vencendo sentimentos e paixões e conseguindo um equilíbrio psíquico saudável.

Há, assim, uma reconciliação das duas partes do corpo, a superior e a inferior. A nudez integral veio lembrar que os órgãos geradores não são vergonhosos – pelo contrário, são os transmissores e os criadores da vida. A oposição entre a carne e o espírito, que ineficazmente se defendeu, levou a que o homem não devesse aceitar o seu corpo, levando a tremendos conflitos interiores de rejeição, aos tormentos do cilício, a sacrifícios causadores de nevroses.

A actividade gímnica acalma estas obsessões, criando uma nova dignidade – aquela em que o homem se aceita com é, sem gritos de intolerância, criadora de conflitos e rejeições.

O naturista é a expressão clara da verdade. Mostra-se como é, sem vergonha do seu corpo, numa manifestação de sinceridade, de expressão fiel da natureza, autêntico. A verdade é a primeira virtude e é sempre representada nua, sem vestuário que a esconda.

Não negando o seu corpo, o naturista não nega a sua sexualidade, não vive os infernos interiores próprios daqueles que mutilam os seus instintos, na falsa defesa de uma sociedade puritana. O naturista abre-se a si mesmo e ao mundo, que não destrói e abre-se aos outros, com quem tem uma comunicação mais fácil e verdadeira do que quando se disfarça sobre o vestuário.

É sincero, porque se aceita a si mesmo. Ama a vida e é franco. A dádiva da vista do seu corpo sem reticências e sem dissimulação, faz dos homens e mulheres naturistas seres para quem a franqueza e a fraternidade são dados espontâneos.

Acrescentemos, talvez um pouco fora do contexto, que o facto de o naturista se ver confrontado ainda, em grande parte, na sociedade actual, com uma oposição intransigente, faz dele um ser independente, que pensa por si, um lutador pelas suas ideias, corajoso, pronto a enfrentar dificuldades, consciente da sua verdade. Num mundo em que a juventude e muitos dos adultos deixaram de acreditar em valores, sem metas, onde a os ideais são a facilidade e o comodismo, a descrença, os comportamentos estereotipados, com desrespeito pelos outros – o naturista surge, por vocação, como pessoa que crê nas virtudes do seu movimento, que acredita na necessidade de olhar em frente e ao longe para atingir um fim, apto a ultrapassar barreiras, com esforço, tolerante como deseja para si, pronto a ouvir porque também quer que o entendam. É alguém que procura, no emaranhado das contradições de hoje, uma via clara, iluminada, pronto a aceitar os que tacteiam na mesma busca difícil por outros caminhos, afectuoso e justo porque também quer para si o reconhecimento do seu direito. Respeitador da natureza, é o homem que tenta ainda salvar o que séculos de desleixo quase liquidaram.

Voltemos ao ponto: o estado de nudez em que não há zonas do corpo permitidas e zonas proibidas, com a obsessão constante de não atravessar a fronteira, afasta por inteiro a ideia, adquirida na educação comum entre nós, de que o nu é um mal. Os povos habituados à nudez não viam qualquer maldade no seu estado, onde os europeus quiseram ver vergonha, tentação e corrupção. A prática sã da actividade gímnica permite alcançar um estado de tranquilidade e simplicidade comparável à daqueles povos e à inocência original.

Uma simples visita a uma praia naturista, onde os sexos estão a descoberto, mostra que o clima aí vivido é muito menos erótico, muito mais natural do que o das restantes praias ou piscinas de frequência mundana.

Não significa isto, repete-se, que a sexualidade desapareceu da vida do naturista – o que seria um absurdo. O que ela deixou de ser foi um facto à parte da vida do indivíduo, ou seja um facto a que este cede cegamente, uma necessidade a que tem de obedecer-se. Concepção esta desvalorizadora e perversa, que ao olhar o sexo como um fenómeno puramente físico criou a pornografia ou que conduziu a repelentes taras de recalcados, das quais a execrável pedofilia é um recente exemplo.

A actividade gímnica, já o deixámos ver, é uma atitude tão espiritual como física: as fontes de vida não são separadas das formas de vida; isto contribui para a evolução dos costumes, corrigindo a aplicação de muitos dos preceitos das leis actuais, ainda inspiradas por um obscurantismo resultante de séculos de opressão (como se vê hoje com mais evidencia em alguns países muçulmanos). As mulheres não são já hoje consideradas entre nós, felizmente, como a preza fácil ou a propriedade do homem; mas só a inserção daquelas e destes na natureza pôde vencer doentias obsessões sexuais, isto é, o nu pôde ser, por si só, dessexualizado e a vista dos órgãos sexuais normalizada com o hábito.

Na família, parte dos desentendimentos frequentes entre gerações resulta da atitude de uns e outros perante a sexualidade. Há em regra uma recusa, mesmo por vezes não deliberada, de falar sobre o assunto por parte dos pais, o que é apenas consequência da educação recebida. Mas para as crianças a nudez é natural e normal e quando viveram a prática naturista não sentem a necessidade de questionar os pais sobre o que nunca lhes foi escondido.

Sem dúvida, a religião contribuiu muito entre nós (e nos acima referidos países muçulmanos) para a repressão da sexualidade e para a doentia vergonha do corpo, como o demonstra a simples comparação entre as diferentes reacções nos vários países europeus à prática naturista. Mas é curioso notar os ensinamentos que nos dá o Papa João Paulo II, quando, ainda Bispo de Cracóvia, escreveu sobre a matéria (Karol Wojtyla – “Love and Responsability” – tradução de H.T.Willets – Farrar, Strauss & Giroux, N.Y. 1981, pag. 176 e segs.): “O decoro sexual não pode, de nenhuma forma, ser associado ao uso de vestuário, nem a vergonha com a ausência de roupa e a total ou parcial nudez…A nudez como tal não deve ser equiparada ao descaramento físico. A ausência de decoro existe apenas quando a nudez desempenha um papel negativo no que respeita ao valor da pessoa, quando o seu propósito é o de resultar em apetite sexual, no qual a pessoa é colocada na posição de objecto de prazer (pág. 190). O corpo humano não é em si mesmo vergonhoso, nem pelas mesmas razões o são as reacções sensuais e a sensualidade humana em geral. A ausência de vergonha (assim como a vergonha e o decoro) é uma função do intimo de uma pessoa (pág. 191).” E depois de referir que a vergonha de ser visto nu é um falso decoro, influencia de sistemas perversos, tais como o jansenismo e o puritanismo – não o catolicismo, Karol Wojtyla escreve: “Existe em certo relativismo na definição do que seja a indecência. Este relativismo pode existir devido às diferenças de contribuição peculiares a certas pessoas – uma maior ou menor excitabilidade sensual, um menor grau de cultura moral ou uma visão diferente do mundo. Este facto pode ser igualmente devido a diferenças nas condições externas, no clima por exemplo, e também nos costumes predominantes, nos hábitos sociais, etc…(pág 186). A roupa é sempre uma questão social, em função dos costumes da sociedade… (pág. 190). Nesta matéria não existe nenhuma exacta similaridade no comportamento de pessoas concretas, mesmo se elas vivem na mesma época e na mesma sociedade (pág. 189).” Noutro escrito (citação em Cws 1.3, pág. 811) diz o Papa: “As nossas reflexões precedentes não põem em causa um direito…No decorrer dos anos – e sobretudo na grande era da arte grega clássica – houve obras de arte em que o tema era o corpo humano na sua nudez, cuja contemplação nos permite absorver, num certo sentido, toda a verdade humana em sua dignidade e beleza – incluindo a sensual – sua masculinidade e feminilidade.”

O naturista sabe, por experiência, tudo isto e verifica-o diariamente. Sentiu-o quando, na sua iniciação, ao cabo de algumas horas ou de alguns minutos do começo de uma actividade desportiva num local naturista, verificou que se esquecera completamente de que estava nu. Atingira o estado a que chamamos gímnico, que é uma nudez colectiva, natural e sã.

Não sem problemas, é sabido. Até porque, pressionados pelo meio, muitos dos naturistas – sobretudo entre nós - , embora estejam prontos a defender a sua verdade, não têm uma atitude militante, não transmitem aos outros as suas convicções e o seu modo de vida, parecendo que escondem o facto de se terem convertido ao naturismo e contribuindo, assim, para que este apareça como um movimento menor, ou mais ou menos clandestino, que tem de olhar-se com desconfiança.

Ora, o naturismo é a resposta a uma sociedade hipócrita, puritana e obcecada pelo interdito, mostrando a expansão actual daquele nessa sociedade que o nu rompe a sua suposta ligação com imoralidades. A prática constante da nudez colectiva nos espaços naturistas tem uma acção estabilizadora, deixando de considerar-se os órgãos sexuais como órgãos à parte, infernais e diabólicos, de que se deveria ter vergonha.

Todos os problemas da prática naturista vêm da dificuldade de destruir esses complexos enraizados, que não permitem compreender que a sexualidade faz parte integrante da vida de todos os dias e que a nudez não é um desregramento mas a manifestação de uma outra ordem moral.

A missão do militante naturista é a de demonstrar que contribui para um movimento de civilização, sem dúvida com contradições internas como todos os movimentos humanos, mas que representa uma vitória da humanidade sobre muitas das ideias fixas actuais, as quais fazem do homem e da mulher simples cabides ou guarda-fatos.

Em resumo:

O nudista não é um maníaco do impudor, mas alguém que descobriu que o nu é simples, é agradável, é belo, é puro (o naturista não vive os fantasmas do homem vestido, do “voyeur”, do vicioso das salas escuras) e é saudável. A sociedade naturista é composta por homens e mulheres que, como dissemos, sabem o que querem, que vivem intensamente o que acabamos de acentuar e para quem o sexo não é uma maldição mas uma fonte de alegria, tomando-o porém como actividade consciente, resultante de uma auto-educação permanente.

A divisa “mens sana in corpore sano” poderia ser adoptada no naturismo, mas talvez em sentido inverso: é pela saúde mental, criada através do hábito naturista, que se poderá atingir a integral saúde do corpo, completo, sem quaisquer constrangimento que o separe por zonas consentidas e interditas – constrangimentos que se traduzem desde logo em recalcamentos doentios, numa mentira, numa retracção geradora de conflitos interiores.

Com o nu integral desaparece o pecado do “sugerido” e nasce uma deliciosa impressão de à-vontade e de liberdade, já atrás referida: sem medos ou receios, com uma simplicidade que resulta do bem-estar corporal e da desdramatização do nu.

Os tempos modernos viram a nudez tornar-se comum, generalizar-se, espalhar-se por toda a parte e em diversíssimas actividades, num alargamento, afinal, de práticas que encontramos em toda a antiguidade. Mas só o nu gímnico revela o nascimento de um novo humanismo, hoje mundialmente reconhecido pelas gentes de boa-fé.

É a vitória sobre os 60 cm2 de que falámos no começo. E uma vitória que conduziu nas nossas praias a uma visão mais bela do corpo humano do que a dos conhecidos corpos zebrados, em tiras a preto e branco.

Texto publicado na Revista da FPN, nº 2, Verão 1997

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