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60 cm2 (ou talvez menos), o Pudor ao centímetro e a Mentira de uma exigência “Moral”

 A base vezes a altura sobre 2 é se bem me recordo, a fórmula geométrica para calcular a área dos triângulos. Partindo de uma média de 15 cm de altura por 8 cm de base num triangulo invertido, encontramos uma superfície máxima de 60 cm2 que ocupam os órgãos sexuais e a zona pilosa anexa, no conjunto de corpos de 1,65 m a 1, 70m de estatura.

E ao verificar a fúria com que os moralistas de todos os quadrantes, neste nosso Ocidente, procuram ocultar aqueles 60 cm2, ameaçando com as mais pesadas penas e os maiores horrores aqueles “desavergonhados” que os destapem, muitas vezes me perguntei porque é que os nossos corpos, um todo criado por Deus e que nos esforçamos por conservar sãos, têm uma zona mínima que tem de ser escondida, embora não tenha segredos para ninguém, já que é igual à de todos os outros seres do mesmo sexo. A noção que tenho de Deus é a de que não pode ser contra a natureza do homem…

Já quando nasci os homens e mulheres usavam “short” e manga curta; as saias subiam ou desciam em todos os tempos consoante a moda, usando-se hoje a mini-saia; os decotes femininos, de frente ou de costas, não têm fronteira traçada; e na praia ou na piscina o meu pequeno calção de banho andou sempre de parelha com os bikinis reduzidos e, ultimamente, com a tanga e o “top-less”, sem escândalo para ninguém. Mas aquela curta área do meu corpo e dos meus próximos, de ambos os sexos, se é visto por outros torna-se, segundo alguns, causa de grande ofensa, de ultraje público ao pudor, um exibicionismo execrável! Só aqueles centímetros quadrados…

Olhei o mundo e vi que não era assim em toda a parte, se bem que encontrasse atitude igual em muitos séculos.

Nesses outros lugares do mundo encontrei homens e mulheres para quem tais centímetros não eram tabu, sobretudo quando aqueles e aquelas se encontravam mais próximos da natureza ou mais afastados dos nossos costumes, ditos civilizados.

Naqueles outros tempos, descobri a beleza da maravilhosa estatuária e pintura sem véu e a história mostrou-me como era diferente o comportamento atlético inteiramente nu de alguns povos antigos.

No tempo actual e neste lugar da nossa vida, a breve trecho me apercebi de como era explorada comercialmente a curiosidade natural por tudo aquilo que anda escondido.

E não me convenceram as “explicações” ouvidas dos moralistas de serviço: 
- que aqueles centímetros quadrados se encontram, afinal, órgãos tão naturais como todos os outros do corpo humano, mas que são, nos homens, mais sensíveis à revelação do desejo sexual e, portanto, perturbador de quem o sente e ofensivo ou excitante dos órgãos de quem dele se apercebe. Há, pois, que escondê-los, por simples decoro.

Esta falácia esconde outra, infelizmente. Mas se a tomarmos como é apresentada, fica-se atónito perante a inocente estupidez da “argumentação”, que pretende explicar a inventada noção de pudor que residiria em 60 cm2 do corpo humano. Tal pudor fundamentaria, só por si, as limitações da liberdade, as proibições incómodas, as condenações humilhantes, as graduações da moralidade, os conceitos impostos com autoridade, todo um comportamento definido por lei. 

Não é difícil imaginar que se está aqui ante a confusão (propositadamente procurada) com o exibicionismo; ou que provém das mentes confusas de quem nunca teve uma verdadeira educação sexual e que, à vida sã ao ar livre, prefere o recato da existência artificial, fechada, auto flagelante, envergonhada dos seus sentimentos e receosa da sua pele, para quem a moral é um ideário de proibições. 

Uma simples estadia, mais ou menos demorada, em qualquer praia “têxtil” (isto é, não naturista), onde o uso do “bikini” feminino e outros trajes reduzidos são, em verdade, de um acentuado e confesso erotismo, demonstra ao observador menos atento que os homens ali presentes não vivem em permanente erecção, perturbados, excitados, ansiosos. A continuada prática, frequente, acostumada, de tais vestes e de tais locais, conduz à espontaneidade do seu uso, à simplicidade dessa quase total nudez, à gritante manifestação do natural, sem excitações fora do tempo. 

E o mesmo se verifica em todos os locais de prática naturista, com muito mais forte razão: não há aí qualquer busca do erótico, há uma inevitável franqueza, a aceitação do olhar de outrem por toda a parte sobre si, a aceitação do próprio corpo sem complexos; e a visão dos outros, habitual e livre, não comporta nenhuma nódoa ou labéu, não provoca surpresas ou perturbações físicas de qualquer natureza. 

Os 60 cm2, onde se refugiaria o pudor, não têm ali qualquer segredo, passando (mesmo sem se meditar sobre o assunto) a entender-se que os órgãos genitais fazem parte integrante do organismo e que não há que recusar a essa parte do corpo uma aceitação igual à de todo o resto. 

Aquela argumentação dos falsos moralistas, sobre a visão indevida de uma excitação incontrolada, é, pois, uma mentira demonstrada diariamente. 

Mas tais argumentos destinam-se apenas a mascarar a causa final da cândida oposição. 

O que verdadeiramente se pretende combater, com a fobia, o medo mórbido por 60 cm2, latente na cultura dominante, é a possibilidade “aterradora” de que a franca exibição de toda a epiderme aos raios solares apouque ou destrua a ideia de mistério e de recato com que se deseja envolver a vida sexual e de que se afaste o temor, que se pretende natural, face aos chamados pecados da carne, com perigosos efeitos na estabilidade das famílias ou na segurança dos jovens. 

Estultícia pura, que resulta do reflexo condicionado nu=sexo, sentido pelos que vivem vestidos e tapados no corpo e no espírito e dominante na mente dos que atravessaram a vida a confrontar-se com a semi-nudez e a aspirar em segredo pelo resto que lhes é negado. É uma consequência da falta de educação sexual daqueles que durante anos foram traumatizados por formas mórbidas de repressão. 

E foi precisamente a experiência naturista, ao instalar a nudez integral no dia-a-dia da sociedade dos seus adeptos, que quebrou esse errado conceito, demonstrando que ela, quando vivida plenamente e em verdade, não é “excitante” e não se presta aos equívocos traduzidos no erotismo do sugerido. A curiosidade que se desenvolve com a idade e leva o indivíduo a querer completar o objecto sexual, descobrindo as suas partes ocultas, deixa no naturista de estar concentrada apenas sobre as partes genitais – questão que é, no homem “vestido”, uma perversão generalizada. 

O nu casto, o nu gímnico, substituíram o nu chulo, pecaminoso. E as crianças desde tenra idade a ele habituadas (é pelo convívio que se sobretudo se educa a infância) e as famílias que o vivem em comum, passaram a desfrutar da redescoberta da natureza, em que a sexualidade normal, as sensações, as emoções, as fontes de excitação se adaptam a uma nova ordem, na qual, sem diminuição da libido e da satisfação genital, se abandonam as fantasias romanescas ou neuróticas para as substituir por uma sensualidade consciente. 

Em suma, o nu integral, vivido habitualmente, não traz para a atracção sexual outras diferenças do que as de sublimar e corrigir. 

O pudor, o sentimento de vergonha e timidez causado pelo que pode ferir a decência, onde se situa então, neste caso? 

Não reside no conhecimento integral do corpo humano, pois esse conhecimento é antes indício de costumes mais francos; não se confunde com o resguardo do indefinível “mistério do sexo”, pois a sexualidade sente-se como parte integrante da vida, sem segredos inquietantes. 

Nem se mede ao centímetro. É tão só um sentimento de vergonha suscitado por acções vis, uma forma de dignidade pessoal, um sentido de amor próprio, de respeito por si mesmo, que faz temer e fugir do que é indigno ou da abdicação perante os nossos deveres, mas que nada têm a ver com a visão da totalidade de um corpo são e com os seus órgãos. 

Anteriormente, não era assim, no nosso meio, é certo. Mas a moral de hoje não é igual à de ontem, o que não quer dizer que os seus preceitos não sejam tão sadios ou mais robustos do que os que regiam a moral precedente, a qual, sem motivo, subordinava exclusivamente o pecado original a uma questão de sexualidade. A moral de hoje, sem que dê origem a uma corrupção generalizada, desenvolve-se num âmbito mais largo do que a de há alguns séculos. A moral não é, com efeito, imutável e já não pode defender-se actualmente que “as almas que menos sabem são as que melhor se comportam”. Não se luta hoje pela castidade à custa de recalcamentos, mas sim pela aquisição de conhecimentos claros, os quais se opõem às ameaças que deformam a consciência pelo escrúpulo ou viciam o comportamento por sufocação. 

Afastada a falsa tese da revelação do desejo sexual apenas pela simples visão de 60 cm2 dos corpos nus, com que contactamos dia a dia na mais franca e honesta convivência, o que é que fica a exigir a permanente cobertura de alguns órgãos? 

Nada! O nu aparece na linha natural da vida, como resultado da existência de homens e mulheres. Os problemas existentes à sua volta foram, em verdade, todos artificialmente criados. E foram mantidos até hoje por graves erros de educação nas primeiras idades, que provocam traumatismos psicológicos perturbadores do desabrochar da personalidade A estruturação funcional do encéfalo, com efeito, é feita da educação da primeira e segunda infância e da sua normalidade dependem o desenvolvimento intelectual e psicológico do homem e as suas reacções. A falta de preparação de muitas famílias e da generalidade das escolas arrasta a criança e o adolescente e, mais tarde, o adulto para aqueles errados comportamentos de repulsa, que se dizem espontâneos mas que não são válidos nem normais. 

Essa educação deformada não se muda, porém, num dia. Há que lutar por uma construção sólida que a modifique. 

E isto porque os benefícios da prática do nu para a saúde física e, sobretudo, para a saúde mental dos que a vivem por inteiro, são indiscutíveis. Embora conhecidos vamos lembrá-los em próxima conversa. 

Pode ser que aprendam alguma coisa aqueles que medem a moral com fita métrica. Mas não é certo…

Autor: presidente da direcção FPN
Texto publicado no Boletim N, nº 0 da Federação Portuguesa de Naturismo em Setembro de 2004  

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